Refúgio e acolhimento. Entretien pour la revue Forum, Brésil

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Refúgio e acolhimento. Entretien pour la revue Forum, Brésil

Revista Fórum – Outro mundo em debate.

Refúgio e acolhimento: reflexões sobre os recém-chegados

Em entrevista, a antropóloga, psicóloga e psicanalista francesa Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky fala sobre a questão da cultura na clínica com refugiados e o trauma.
Por Ana Gebrim

O ano de 2015 foi marcado por intensas crises no cenário internacional que produziram números recordes de pessoas em deslocamento. Só no ano passado, mais de 750 mil refugiados chegaram à Europa cruzando o mar Mediterrâneo. No Brasil, o número de solicitantes de refúgio teve um aumento de 2.000% nos últimos quatro anos, segundo dados da Acnur. Atualmente, mais de 13 mil pessoas aguardam decisão do governo brasileiro sobre seu estatuto de refugiado.
É considerado refugiado quem sofreu algum tipo de perseguição em razão de seu grupo social, etnia, opinião política ou nacionalidade e, por isso, teve que se deslocar. De forma geral, refugiados recém-chegados estão em condição de profunda vulnerabilidade social e psíquica. Nesse contexto, como podemos pensar em políticas de acolhimento institucional para essa população?
Tendo em vista algumas dessas questões, conversamos com a antropóloga, psicóloga e psicanalista Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky, em Paris, cidade que se encontra particularmente tocada por novos fluxos de deslocamento. Saglio-Yatzimirsky é professora titular na Universidade Instituto das Línguas e Culturas Orientais (INALCO, Paris) e pesquisadora no CESSMA (Centro de Pesquisa da Universidade Paris 7 Diderot, INALCO, IRD), especialista da questão da exclusão social na Índia e no Brasil e trabalha como psicóloga no Hospital Avicenne, atendendo solicitantes de refugio. Além de livros sobre favelas na India e no Brasil (Dharavi, from megaslum to urban paradigm, ed. Routledge 2013 e Megacity slums in India and Brazil, ed. Imperial College Press, 2014), suas últimas publicações abordam a questão da cultura na clínica com refugiados e o trauma.
Fórum – Supondo a vivência de experiências-limite que impulsionaram o deslocamento, como podemos pensar o acolhimento de refugiados recém-chegados?
Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky – Já no uso do termo “acolhimento”, podemos ter em vista a ideia de uma abertura. O que me parece uma dificuldade em nosso acolhimento na Europa, atualmente, com tudo que tem se passado, é precisamente essa falta de abertura. Podemos tomar isso a partir de um exemplo, isto é, no momento em que há um pensamento predominante que se questiona: estamos diante de um refugiado ou de um imigrante? De um refugiado político ou de um imigrante econômico? Seriam esses os bons refugiados ou os maus refugiados? Aí não se está mais no acolhimento.
Penso que, para acolher, é necessário se livrar de grande parte dessas categorias de preconceitos. E mais ainda, para acolher pessoas que tiveram experiências-limite, como você nomeia, me parece que existem sobretudo três necessidades. A primeira é a de partir do pressuposto de que o refugiado não é uma vítima. Refugiado é alguém que fez uma escolha, certamente não a escolha de chegar especialmente no país em que se encontra, mas alguém que teve suficientemente liberdade para fazer a escolha de decidir que a situação em que estava não era mais suportável e portanto foi preciso partir. Então, a primeira coisa é que não são vítimas, são sujeitos que puderam realizar uma escolha.
A segunda coisa é que refugiados não são mentirosos. A mentira foi criada por uma máquina administrativa e seu mau funcionamento, portanto não são mentirosos, são pessoas que passaram por situações de violências extremas e que hoje têm que se haver com isso. O terceiro elemento, e aqui falo sobretudo como psicóloga que os recebe em um serviço no hospital, refugiados não são doentes. Muitos sofrem do ponto vista físico e psíquico, o que legitima o encaminhamento aos serviços de saúde, alguns podem estar efetivamente doentes, mas refugiados não são necessariamente “traumatizados”. Mais do que tudo, pessoas em deslocamento são sujeitos que fizeram uma escolha e, nesse sentido, enquanto profissionais, na perspectiva do acolhimento, devemos poder propiciar que possam levar a diante suas escolhas.
Fórum – É possível pensar que em todas as funções, inclusive as administrativas, podem cumprir um papel terapêutico de acolhimento para os sujeitos recém-chegados?
Saglio-Yatzimirsky – Creio que seja sempre necessário pensar o acolhimento como plurivalente, isto é, no caso de um centro de acolhida que ele possa funcionar no âmbito sócio-administrativo, jurídico, médico, para os que têm necessidade, também psicológico, para pessoas que viveram, por exemplo, traumas graves.
Portanto, a necessidade de um acolhimento plurivalente me parece evidente. Mas enquanto função terapêutica, penso que não necessariamente podemos associar isso a qualquer dispositivo de acolhimento. Isto é, existem lugares e funções de acolhida que exercem violências enormes.

Penso especialmente em todos os lugares de acolhimento em que se deve fazer o refugiado necessariamente falar – em que sua identidade e parte de sua história devem ser declinados – para que a instituição possa se ocupar dele. Inscrevendo o refugiado na necessidade do dizer, e muitas vezes inserida em uma lógica da prova, evidentemente, se produz violência a sujeitos que tiveram percursos marcados por diversas dificuldades. Sujeitos que, em um interrogatório, não importa de que ordem, estão expostos a serem violentados. Pensar em um centro de acolhimento é considerar que se está diante de sujeitos que foram extraordinariamente refratados por seus percursos de vida.

Fórum – Experiências de extrema violência quando relatadas pelos sujeitos têm o potencial de produzir aos ouvintes tanto um afastamento defensivo – muitas vezes de rechaço – como, no sentido inverso, uma posição de profunda fascinação. Como podemos pensar uma distância adequada no contato que marca o acolhimento, em diversos setores, a imigrantes e refugiados?

Saglio-Yatzimirsky – Penso que a questão da fascinação, ou de seu contrário, o rechaço diante da vulnerabilidade, diante da fragilidade psíquica ou diante do colapso de um outro, é alguma coisa que pode nos tomar. Seja diante de um refugiado ou pessoas que estejam em situações de vulnerabilidade e que por isso mesmo acabam por questionar também nossa parte obscura e nossa própria vulnerabilidade, isto é, vêm até nós despertar mecanismos de defesa comuns.

Mas podemos pensar que esses mecanismos são também eticamente questionáveis, por exemplo, como uma sociedade pode se fechar ao acolhimento de pessoas colocando na dianteira interesses econômicos ou confortos sociais para fechar fronteiras e deixar milhares de pessoas se afogarem? Como sair dessa cegueira de mecanismos de defesa sistemáticos? Novamente podemos responder a isso trazendo a tona a figura do refugiado, isto é, como disse há pouco, esse que não é nem vítima, nem mentiroso, e nem pessoas que vieram nos tirar alguma coisa. Mas a figura do refugiado como aquela que por detrás carrega experiências de fuga de violências extremas, em que houve uma escolha, e é nessa perspectiva que podemos colocar relevo antes de se sentir agredido por uma demanda exterior.

Fórum – Diante da ascensão da categoria de Trauma como um diagnóstico psiquiátrico, e cada vez mais revestido por tecnologias psicoterapêuticas, como pensar uma intervenção clínica capaz de levar em conta as experiências do sujeito?

Saglio-Yatzimirsky – Essa é uma questão muito importante, e que tem se colocado muito em relação ao trauma enquanto categoria biomédica, diagnóstica e psiquiátrica, e sobretudo nos equipamentos de saúde, em que se está colocado o contexto também de urgência a populações em necessidades extremas. Nesse contexto, existe uma escolha a ser feita, que em minha posição é a de utilizar instrumentos para trabalhar com o trauma que não são de ordem psiquiátrica, mas instrumentos que possam se endereçar a subjetividade.

Nessa questão é possível visualizar um paradoxo do meu trabalho: tenho uma obrigação de cuidado, e ao mesmo tempo, sei que não será senão instaurando um enquadre clínico que possa se endereçar à subjetividade e à história do sujeito e suas possibilidades de construir sentido, de vínculos com outros sujeitos para dar sentido a tudo isso, que poderei chegar a algum lugar. Nesse sentido, a delicadeza de um trabalho clínico com o trauma seria o de se perguntar: ainda que muitas vezes diante de um psicodiagnóstico, como podemos nos distanciar da urgência médica, evidentemente podendo responder às necessidades mínimas do bem-estar, para poder trabalhar na perspectiva de reparar e restaurar o sujeito que demanda atendimento? No trabalho com o trauma, estamos diante do encontro humano, e isso não se faz senão através do resgate de um sujeito que, muitas vezes, foi culturalmente refratado de uma forma terrível.

http://www.revistaforum.com.br/semanal/wp-content/uploads/2016/01/ed228-sumario-refugio.jpg, ediçao 28, janeiro 2016