Receber cidadãos é muito mais produtivo do que receber refugiados

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Receber cidadãos é muito mais produtivo do que receber refugiados

OBSERVATÓRIO 9474

Receber cidadãos é muito mais produtivo do que receber refugiados
setembro 23, 2015

*Por Larissa Frozel Barros

No último dia 15 de agosto, o Laboratório de Psicanálise e Sociedade (USP) e o Núcleo de Psicanálise e Política (PUC-SP) realizaram o evento “Imigração e Refúgio: Práticas Clínico-Institucionais”, na sede da APROPUC (Associação dos Professores da PUC-SP).
Apesar da discussão sobre migração ser atual e estar em evidência, talvez muitos amantes do tema tenham hesitado em comparecer ao evento por conta da referência a “Práticas Clínico-Institucionais”. E de fato um encontro organizado por grupos de psicanálise não poderia dar outra impressão além da possibilidade de uma abordagem específica do assunto.

É importante notar, entretanto, que as palavras “sociedade” e “política” aparecem no nome dos grupos da USP e da PUC-SP, respectivamente. Isso para sublinhar que há algum tempo a psicologia vem se abrindo para o diálogo com outras áreas, e este evento poderia ser caracterizado como um exemplo desse movimento no que se refere à imigração e ao refúgio.
Para psicólogos e psicanalistas o termo “prática clínico-institucional” é usado justamente para problematizar o diálogo entre a dimensão política e a dimensão clínica que circunscreve a saúde mental dos indivíduos. É como o resultado de uma análise mais abrangente de que a psicologia integra-se a outras ciências, constituindo uma trama de saberes que se aproxima do coletivo.
Em linhas gerais caberia traduzir que o evento tratava, portanto, da imigração e do refúgio a partir da perspectiva da interdisciplinaridade entre psicologia e política. Ou de forma mais abrangente, entre psicologia e ciências sociais.
Na primeira mesa intitulada “Imigrante: subjetividade e política”, a fala da antropóloga francesa Marie Caroline Saglio-Yatzimirsky[1] (também formada em psicologia clínica) expôs claramente que o evento poderia proporcionar reflexões muito além da prática clínica.
A ideia central para o desenvolvimento de sua fala compreendia a consciência de que enquanto psicóloga, o envolvimento com o tema de migrações não era uma questão assistencialista ou ética, mas sim um conteúdo extremamente político. E por isso as perguntas substanciais no atendimento a imigrantes e refugiados deveriam ser: Como criar um cidadão? Como pensar a prática clínica para auxiliar os indivíduos deslocados na firmação de um lugar na pólis?
Cabe inicialmente definir quais deslocamentos abrangem os movimentos migratórios. Segundo Marie Caroline, as mudanças geográfica, política e psíquica são basilares para a compreensão de qualquer sujeito que adentra uma nova realidade política, visto que os indivíduos perdem nesses deslocamentos o pulso vital que os inscreve na cultura.
Recorrendo ao conceito de “crise de presença” do italiano Ernesto de Martino, parece ainda mais palpável o esforço da antropóloga francesa em explicar que os deslocamentos podem configurar-se como ameaça à luta pelo existir. A subjetividade do homem na pólis envolve
“a ‘crise de presença’ como ‘angústia’, que ‘exprime a vontade de existir como presença, diante do risco de não existir’. (…) Em suma, existe uma presença pessoal que arrisca se perder. O risco é superado por meio de formas de resgate, de recuperação de presença.” (DE MARTINO, 1973: 95 apud CIPRIANI, 2007: 184).
Portanto, se a integração do imigrante ou do refugiado na sociedade é uma forma de trabalhar a superação do trauma, torna-se assertiva a afirmação que Marie Caroline faz sobre a consulta clínica como um lugar de extrema importância para a reinserção política do sujeito.
Com a apropriação da ideia de “crise de presença”, verifica-se também que a mentira pode ser colocada como uma evidência da intersecção entre psicologia e política quando o debate circunscreve imigração e refúgio. Pois os sujeitos que se deslocam geografica, política e psiquicamente enfrentam inúmeras burocracias. Ou seja, mentir pode ser uma resposta racional face a questões burocráticas que garantem a segurança do indivíduo, sua integração social e sua existência ou presença na pólis.
A partir desse raciocínio a conclusão da fala de Marie Caroline parece direcionar-se a todos os profissionais envolvidos com imigrantes e refugiados, sejam eles responsáveis pela saúde mental, pela integração ou mesmo pela proteção desses indivíduos.
“Receber cidadãos é muito mais produtivo do que receber refugiados!”
Porque o refúgio (bem como a migração forçada) é uma condição que se impõe sobre o sujeito, mas a cidadania é um título próprio de quem participa da vida política do Estado.
Neste sentido, as “Práticas Clínico-Institucionais” que compõem o título do evento sobre imigração e refúgio em questão, revelam como o diálogo entre psicologia e política é importante não só no que tange a interdisciplinaridade dos saberes, mas principalmente no que diz respeito a construção de cidadãos.
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[1] Professora no Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (INALCO). Coordena desde 2012 o programa “Refugiados, Cidades, Saúde Mental” (Univeridade Paris XIII e Universidade de São Paulo). Atualmente segue seus ensinamentos e pesquisas na questão da cultura e da exclusão na Índia e no Brasil, e na relação entre antropologia, psicologia e psicanálise com parceiros europeus, indianos e brasileiros, além de realizar consultas psico-traumatológicas com solicitantes de refúgio no hospital francês Avicenne. Mais informações: http://www.mcsy.fr/ .
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Referências bibliográficas:
CIPRIANI, Roberto. Manual de Sociologia da Religião. São Paulo: Paulus, 2007. Disponível em: https://www.passeidireto.com/arquivo/4197251/manual-de-sociologia-da-religiao–roberto-cipriani. Acesso em: 12 de setembro de 2015.
ESCÓSSIA, Liliana da & MANGUEIRA, Maurício. Para uma psicologia clínico-institucional a partir da desnaturalização do sujeito. Revista do Departamento de Psicologia – UFF, v. 17 – nº 1, p. 93-101, Jan./Jun. 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rdpsi/v17n1/v17n1a07.pdf. Acesso em: 10 de setembro de 2015.
SAGLIO-YATZIMIRSKY, Marie Caroline. Biographie. Disponível em: http: http://www.mcsy.fr/?page_id=3678. Acesso em: 10 de setembro de 2015.
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